segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Homens e a Metade em Cigarros

Eu o observava de longe. Não era exatamente o que se pode chamar de "homem". Devia ser meio homem, ou algo perto disto. O tempo todo que eu fiquei a observá-lo, ele não fumou um cigarro sequer. Como ele pode ser um homem sem um cigarro?

Eu costumo avaliar as pessoas pelo cigarro. Quando vem com aqueles cigarros cheios de frescura, eu nem continuo. Sei que não é gente da vida, que não tem nem história para contar. Normalmente, são meninos com o carrinho do papai. Tem aqueles que usam filtro também. Coisa de viado. Ou fuma direito ou não fuma. Ficar de frescura pedindo cigarro com filtro é a maior idiotice que eu já vi. Pior do que cigarro com sabor. Homem que é homem fuma puro, sem filtro, sem sabor. Tem também aqueles que compram o mais caro, cheio de frescura para mostrar para os outros. Aquelas porcarias nem são cigarro, são Sampoerna, e todo mundo sabe que Sampoerna não é cigarro. E eu só fico olhando de longe, rindo sozinho.

Mas esse não. Ele não fumava. Como alguém vem em um bar, às tantas horas da madrugada, e não pede um cigarro? Se ele pedisse algum, ou fingisse que pediu, eu poderia avaliar, dizer para mim mesmo se era boa coisa ou não. Mas nem isso ele fez. E isso me cativou profundamente. Eu tinha que falar com ele.

Sem rodeios, eu cheguei no balcão e perguntei:
- Você não fuma?

Ele olhou para mim, primeiro surpreso, depois ligeiramente ofendido com a pergunta. Olhava diretamente para o meu Carlton, parecia ter medo. A fumaça saía deliciosa, quase irresistível para mim.

- Não. Por quê? - ele perguntou, ainda espantado. Ele se fez mais interessante. Como poderia sentir o cheiro do meu cigarro e dizer, com toda aquela convicção, que não fumava?

- É estranho. Você é o primeiro aqui que não fuma.
- Percebi... - ele falou, olhando em volta, confirmando o que dissera, e virando o rosto, encerrando a conversa.

Eu voltei para a minha mesa, tão confuso quanto antes. Alguém que não fumava... Ele era simplesmente imune ao cigarro. Eu olhei para o meu, entrelaçado ente meus dedos, e dei um último trago. Para acender outro, claro.

Por toda a noite eu fiquei observando o rapaz. Ele era totalmente imune. Não sentia nada, nem felicidade, prazer ou vontade. Pelo contrário, se incomodava com a fumaça. Um senhor se sentou perto dele, fumando um Gudang de menta, e incrivelmente ele se sentiu nauseado e se sentou mais longe.

Foi a cena mais incrivelmente aterrorizante da minha vida.

Naquele momento, o rapaz percebeu a atenção que eu lhe dava e, ocasionalmente, se virava para trás, para ver se eu ainda o observava, de forma discreta. Então eu fiz algo inédito para mim: disfarcei. Quando ele se virava, eu olhava para os lados, fingia que não via, desviava a atenção.

E numa destas, percebi que todo o resto do bar, inclusive eu, fumava. E a maioria fumava cigarro sem filtro ou sabor. Então, fiz-me lúcido, e ele era o homem, e nós, apenas meio homens, ou algo perto disto. Majestosamente, ele ergueu seu copo e tomou um puta gole de cerveja, como se celebrasse a sua conquista de "Homem do Bar". E era cerveja! Não era rum, vodka ou uma caipirinha qualquer. Era cerveja!

Discretamente, eu me levantei e saí do bar, antes que ele percebesse a minha ausência. Lá fora, olhei para o meu Carlton, ainda grande entre meus dedos, e dei uma tragada. Forte, potente, capaz de ser sentida nos lugares mais profundos dos meus pulmões. Ele era o homem. Ele me vencera. Eu nunca mais poderia, pensaria em entrar naquele recinto novamente.

Mas eu não era tão forte. Segui para o próximo bar, ainda fumando meu cigarro.

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